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Sporting: a queda do príncipe-regente

Autor Gil Nunes em Quinta-feira, 26 Novembro 20092 Comentarios

É difícil definir o futebol sénior do Sporting. É quase como ler um livro de poesia numa língua estrangeira. Se a interpretação já traz consigo um novelo de dúvidas, depois as expressões idiomáticas complicam ainda mais o cenário. Às vezes, melhor do que pensar é sentir. Foi isso que Derlei fez, há cerca de um ano, em entrevista à SportTv, quando na altura lhe foi pedido para classificar Paulo Bento.

“Um cara bem compreensivo..”

Foto: Nacho Doce/Reuters
Foto: Nacho Doce/Reuters

A frase revelava desde logo a instabilidade reinante. Naquele contexto, em que o Sporting vencera o Benfica há poucos dias, por que motivo defender o treinador? Pequenos detalhes. Os problemas já existiam. Sobretudo, é preciso ver que estamos perante um balneário muito jovem e passível de alguma imaturidade. Derlei, com o seu sorriso discreto, transmitiu uma mensagem muito forte na ocasião.

Um dos principais problemas do Sporting é a falta de jogadores que sirvam de referência. Nomes como Sá Pinto ou Pedro Barbosa são importantes, mas nenhum deles está devidamente associado a um passado glorioso do clube.

O Sporting peca, ainda, pelo hiato de 19 anos sem títulos nacionais, algo que o Benfica tenta este ano evitar a todo o custo. Todavia, a construção da Academia de Alcochete e a chancela de clube ligado à formação desportiva dá aos leões um aspecto “cool” que o revigora. Mas não é tudo. O Sporting, futebolisticamente falando, ainda é um clube em recuperação.

Mas atentemos no presente. Quando se soube das demissões de Paulo Bento e de Pedro Barbosa, o primeiro nome a ser equacionado foi o de Luís Freitas Lobo. O comentador desportivo tem um conhecimento inigualável do mundo do futebol e garantia, desde logo, a solução para um problema de curto – prazo: a desarticulação do plantel. Metódico e com conhecimento dos enquadramentos tácticos necessários para o êxito no futebol português, Freitas Lobo seria o timoneiro ideal.

Olho para o Sporting e vejo uma espécie de “VukSporting”. Um clube á dimensão do seu camisola 10: é um excelente jogador, tem um potencial tremendo mas não é o jogador que o Sporting precisa. Alargando este raciocínio a todo o restante plantel, vejo uma cartilha de óptimos elementos que não conseguem suprir necessidades.

O Sporting tem bons centrocampistas mas nenhum deles é rápido. Na defesa há qualidade mas o bloqueio do jogo aéreo do adversário fica aquém do necessário. Lá na frente Liedson é um super-jogador mas ainda não encontrou o parceiro ideal. Depois o sistema de 4×4x2 cristalizou-se, tornando-se previsível no panorama nacional. Bem estudado, o Sporting era facilmente neutralizado.

Não quero com isto dizer que Paulo Bento não fez um bom trabalho. Mais do que tudo, consolidou a equipa no 2º lugar nacional e criou uma espinha dorsal jovem, com potencial para se agigantar no futuro. Porém, em vez de evoluir, o Sporting foi buscar jogadores como Angulo ou Caicedo, que na prática pouco acrescentam e, sobretudo, pouca diversidade dão ao modelo de jogo vigente. Aqui, o problema foi de casting.

Foto: Tiago Petinga/Lusa
Foto: Tiago Petinga/Lusa

 

Na minha opinião Paulo Bento foi um óptimo “príncipe regente” da corte. Pede-se, nesta altura, algo mais e a tentativa de contratação de André Villas – Boas vem ao encontro de novos ventos e ideias que confiram uma filosofia diferente ao Sporting. No jogar, no sentir, no enfrentar dos desafios. A opção não se concretizou e tomou-se, a meu ver, a medida mais lógica. Carlos Carvalhal é um técnico com conhecimento do futebol português, tacticamente é muito evoluído – sabe jogar em diversos sistemas e modelos – e proporciona a tranquilidade necessária: não se lhe conhecem grandes conflitos ao longo da carreira e, mesmo próximo dos jogadores, parece adoptar uma postura de respeito e sobriedade suficientemente sólida para impor as suas ideias sem desvios.

Como já disse noutra ocasião, o Sporting é muito mais do que a sua equipa sénior de futebol. Vale pelas camadas jovens, pelo ecletismo e pela mensagem de portuguesismo e de história que transmite. Dizer que o Sporting está em crise é colocar em causa todo o esforço de profissionais que dão o melhor de si em prol do clube e do desporto português. Ser multifacetado só traz vantagens. O Sporting dificilmente ficará em crise.

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2 Comentarios »

  • TÂNIA escreveu:

    gostei… desta vez!
    Mas ainda bem que o príncipe caiu… há mto que devia ter caído…

  • Luciano Rodrigues escreveu:

    Excelente análise do beco sem saída onde anda o Sporting.

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