Sporting: a queda do príncipe-regente
É difícil definir o futebol sénior do Sporting. É quase como ler um livro de poesia numa língua estrangeira. Se a interpretação já traz consigo um novelo de dúvidas, depois as expressões idiomáticas complicam ainda mais o cenário. Às vezes, melhor do que pensar é sentir. Foi isso que Derlei fez, há cerca de um ano, em entrevista à SportTv, quando na altura lhe foi pedido para classificar Paulo Bento.
“Um cara bem compreensivo..”
Foto: Nacho Doce/Reuters
A frase revelava desde logo a instabilidade reinante. Naquele contexto, em que o Sporting vencera o Benfica há poucos dias, por que motivo defender o treinador? Pequenos detalhes. Os problemas já existiam. Sobretudo, é preciso ver que estamos perante um balneário muito jovem e passível de alguma imaturidade. Derlei, com o seu sorriso discreto, transmitiu uma mensagem muito forte na ocasião.
Um dos principais problemas do Sporting é a falta de jogadores que sirvam de referência. Nomes como Sá Pinto ou Pedro Barbosa são importantes, mas nenhum deles está devidamente associado a um passado glorioso do clube.
O Sporting peca, ainda, pelo hiato de 19 anos sem títulos nacionais, algo que o Benfica tenta este ano evitar a todo o custo. Todavia, a construção da Academia de Alcochete e a chancela de clube ligado à formação desportiva dá aos leões um aspecto “cool” que o revigora. Mas não é tudo. O Sporting, futebolisticamente falando, ainda é um clube em recuperação.
Mas atentemos no presente. Quando se soube das demissões de Paulo Bento e de Pedro Barbosa, o primeiro nome a ser equacionado foi o de Luís Freitas Lobo. O comentador desportivo tem um conhecimento inigualável do mundo do futebol e garantia, desde logo, a solução para um problema de curto – prazo: a desarticulação do plantel. Metódico e com conhecimento dos enquadramentos tácticos necessários para o êxito no futebol português, Freitas Lobo seria o timoneiro ideal.
Olho para o Sporting e vejo uma espécie de “VukSporting”. Um clube á dimensão do seu camisola 10: é um excelente jogador, tem um potencial tremendo mas não é o jogador que o Sporting precisa. Alargando este raciocínio a todo o restante plantel, vejo uma cartilha de óptimos elementos que não conseguem suprir necessidades.
O Sporting tem bons centrocampistas mas nenhum deles é rápido. Na defesa há qualidade mas o bloqueio do jogo aéreo do adversário fica aquém do necessário. Lá na frente Liedson é um super-jogador mas ainda não encontrou o parceiro ideal. Depois o sistema de 4x4x2 cristalizou-se, tornando-se previsível no panorama nacional. Bem estudado, o Sporting era facilmente neutralizado.
Não quero com isto dizer que Paulo Bento não fez um bom trabalho. Mais do que tudo, consolidou a equipa no 2º lugar nacional e criou uma espinha dorsal jovem, com potencial para se agigantar no futuro. Porém, em vez de evoluir, o Sporting foi buscar jogadores como Angulo ou Caicedo, que na prática pouco acrescentam e, sobretudo, pouca diversidade dão ao modelo de jogo vigente. Aqui, o problema foi de casting.
Foto: Tiago Petinga/Lusa
Na minha opinião Paulo Bento foi um óptimo “príncipe regente” da corte. Pede-se, nesta altura, algo mais e a tentativa de contratação de André Villas – Boas vem ao encontro de novos ventos e ideias que confiram uma filosofia diferente ao Sporting. No jogar, no sentir, no enfrentar dos desafios. A opção não se concretizou e tomou-se, a meu ver, a medida mais lógica. Carlos Carvalhal é um técnico com conhecimento do futebol português, tacticamente é muito evoluído – sabe jogar em diversos sistemas e modelos – e proporciona a tranquilidade necessária: não se lhe conhecem grandes conflitos ao longo da carreira e, mesmo próximo dos jogadores, parece adoptar uma postura de respeito e sobriedade suficientemente sólida para impor as suas ideias sem desvios.
Como já disse noutra ocasião, o Sporting é muito mais do que a sua equipa sénior de futebol. Vale pelas camadas jovens, pelo ecletismo e pela mensagem de portuguesismo e de história que transmite. Dizer que o Sporting está em crise é colocar em causa todo o esforço de profissionais que dão o melhor de si em prol do clube e do desporto português. Ser multifacetado só traz vantagens. O Sporting dificilmente ficará em crise.
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gostei… desta vez!
Mas ainda bem que o príncipe caiu… há mto que devia ter caído…
Excelente análise do beco sem saída onde anda o Sporting.
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