Ir ou não ir, eis a questão
Após duas vitórias, mais do que normais, esperadas e justificadas contra a Hungria e Malta, Portugal garantiu a presença no play-off de acesso à fase final do Mundial da África do Sul. Agora, o obstáculo a ultrapassar dá pelo nome de Bósnia-Herzegovina.
Nascida dos escombros da velha Jugoslávia, a Bósnia sempre viveu na sombra dos seus vizinhos mais poderosos (Sérvia, Croácia e Eslovénia), agora dá um ar da sua graça. Situada na região dos Balcãs, um barril de polvora geo-político, a Jugoslávia espalhou o perfume do seu futebol pelos campos do mundo durante anos. Com o deflagrar da guerra, o país estilhaçou-se em enúmeros países. A nação de Tito perdeu o direito a disputar o Euro 92 (substituida à pressa pela futura campeã, Dinamarca) e o Campeonato do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. O que podereia ter feito esse conjunto de jogadores formidáveis, muitos deles vencedores da Taça dos Campeões Europeus, um ano antes, pelo Estrela Vermelha, estandarte de um regime em decadência e um país em ruínas? Ninguém sabe, nem nunca saberá. Certo é que quem julgou que o poder futebolístico se esgotaria com a divisão ou seria absorvido pela Sérvia, enganou-se. Não só não foi assim, como as nações surgidas do pós-guerra mantiveram o brilho e a competividade. Muitas delas com participações meritórias nos grandes palcos mundiais.
Foto: Peter Kohalmi/AP Photo
Logo, a Bósnia não será pêra doce para uma selecção portuguesa que demorou a encontrar-se e que teve uma qualificação, no mínimo sofrível. Edin Dzeko é o cartão de visita dos balcânicos que tentam a primeira presença no Campeonato do Mundo de Futebol. E que cartão de visita… Este avançado foi o melhor marcador da última Bundesliga e grande obreiro da caminhada vitoriosa do Wolfsburg. Se lhe juntarmos Ibisevic e Misimovic, também a actuarem na Alemanha, são razões mais do que suficientes para não se ter o apuramento como garantido.
Embora a selecção portuguesa tenha argumentos mais do que suficientes para garantir o lugar, há uma questão que se deve colocar. Valerá a pena estar presente? Conseguirá a selecção ter uma presença digna, ou os fantasmas da Coreia/Japão podem voltar a pairar?
Foto: José Manuel Ribeiro/Reuters
Embora seja desejo de todos estar presente no primeiro mundial africano, até pela responsabilidade histórica e os laços afectivos que Portugal tem com este continente, seria uma pena falhar esta competição. O apoio está mais do que garantido, ou não fosse a África do Sul um dos países que mais imigrantes portugueses acolhe. E, estes, nunca regatearam apoio à selecção nos momentos mais difíceis, quando ele é necessário. Para além disso, temos que juntar os milhões de africanos de língua oficial portuguesa que, certamente, terão um lugar no coração para acarinhar a selecção. Toda esta moldura humana pode empurrar a equipa das Quinas para um brilharete.
Mas, se pelo contrário, o Mundial for só pela televisão e a torcer por fora (o que já não acontece há mais de uma década), não vem mal nenhum ao mundo. Muitas selecções já falharam competições importantes e reergueram-se ainda com mais força. Veja-se o caso da Inglaterra, falhou o último Europeu mas, fez um apuramento sem mácula e garantiu a presença na África do Sul com grande facilidade. E, diga-se, o grupo não era dos mais fáceis.
A Federação tem de decidir se quer uma equipa para resultados imediatos ou garantir uma constante formação para o futuro. A França fê-lo e os resultados saltam à vista. Já foi campeã da Europa e do Mundo. E Portugal o que ganhou? Com excepção dos troféus jovens conquistados pela chamada “Geração de Ouro”, muito pouco. É certo que estas conquistas têm a sua importância, é inegável mas, a falta de continuidade do projecto de formação de Carlos Queiroz (honra lhe seja feita neste ponto) sempre impediu que os resultados chegassem onde são mais visíveis: a Selecção AA.
Falta de qualidade não é, pois os nossos jogadores fazem as delícias dos apreciadores de futebol por todo o mundo. Portanto, para dar alegrias a todos os portugueses, é necessário mudar o paradigma do nosso futebol. Criar uma verdadeira máquina de formação, capaz de garantir sucessos constantes a médio\longo prazo e formar um grupo coeso, sem vedetismos e capaz de jogar como um todo.
Por tudo isto, se calhar, Portugal não ser apurado teria as suas vantagens. Pelo menos, obrigar-nos-ia a repensar e a consertar o que está mal.
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